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Biodiversidade

Terça-feira, 02 de Junho de 2015

 
     

Lagostins de água doce: pesquisa identifica 15 novas espécies no Brasil

  

As novas espécies do gênero Parastacus foram identificadas em diversos pontos no RS e, o que mais chamou a atenção dos pesquisadores, foram os registros nas áreas de campos úmidos

  

Felipe Ribeiro    
Parastacus sp. nova espécie identificada nos Campos de Cima da Serra


Por Eliege Fante - Rede Campos Sulinos

Com as 15 novas espécies identificadas, o Brasil passa a ter 21 espécies de lagostins do gênero Parastacus, e a América do Sul passa a ter 24 espécies. Os doutorandos do Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal da UFRGS, Felipe Bezerra Ribeiro e Kelly Martinez Gomes, registraram espécies novas em São José dos Ausentes, Santa Maria, Morrinhos do Sul, Dom Pedro de Alcântara, São Jerônimo, Dom Feliciano, Osório, Caraá e Maquiné. Para Felipe, o resultado indica que esse grupo tem a diversidade subestimada e muitas espécies correm o risco de ser extintas antes mesmo de tornarem-se conhecidas. “O trabalho de taxonomia é importante para conhecermos essa diversidade e podermos fazer um manejo adequado com vistas à conservação das espécies animais e do ambiente em que vivem,” disse. As principais ameaças a essas espécies são a poluição dos corpos d’água, o aumento da área de agricultura e agrotóxicos utilizados, assim como o despejo de esgoto nos arroios urbanos.

Os jovens pesquisadores contaram que o trabalho da pesquisa se iniciou com a análise prévia das coleções científicas da UFRGS, que é a maior do Brasil e da América do Sul, sobre os lagostins de água doce do gênero Parastacus, e de outros museus. Kelly lembrou que foram 50 expedições a localidades onde já havia registros e também a novos locais, contabilizando mais de 130 pontos visitados no RS e SC. As diferentes características morfológicas, dentre outras, descritas pelo taxonomista, confirmam se tratar de novas espécies para a Ciência. “Buscávamos espécies dentro dos arroios utilizando rede de puçá. Durante o trabalho, vimos que outras técnicas seriam necessárias para captura dos animais, como a bomba de sucção, porque eles se encontravam, por exemplo, em áreas úmidas,” contou. Ou seja, os pesquisadores constataram que os animais ocupam áreas além do arroio e suas margens.

Kelly destacou a oportunidade de conhecer as tocas e os vestígios da passagem dos lagostins de água doce. Tanto que este aprendizado contribuiu para a identificação da presença de lagostins na Reserva Biológica de Ibirapuitã (Alegrete, RS) em pleno bioma Pampa, em um afloramento de água no campo. Por isso, recomendam que os estudos sobre os lagostins de água doce tenham sequência nos Campos Sulinos, onde há poucos registros de Parastacus.


Quem são os lagostins?
São crustáceos decápodos (cinco pares de pernas), parentes dos camarões, lagostas e caranguejos. Só ocorrem em água doce, utilizando a água dos arroios e/ou do lençol freático. Na América do Sul são representados por três gêneros, sendo que no Brasil, são encontrados apenas espécies do gênero Parastacus.

Conforme a descrição de Felipe, são animais de porte médio, com comprimento não superior a 20 cm, e possuem dieta onívora. “O hábito de escavar tocas é a característica exclusiva dos lagostins de água doce do gênero Parastacus, por isso estão mais associados a margens e a afluentes de arroios, banhados e áreas úmidas. Não são encontrados nos corpos d’água de grande porte porque há muita correnteza,” explicou.
Segundo Kelly, algumas espécies, como Parastacus defossus, podem constituir famílias dentro das tocas e construir chaminés de até 30 cm de altura. Ao utilizarem a bomba de sucção, encontraram o macho, fêmea e os juvenis coexistindo.
 

Ameaças
Tanta riqueza ainda a ser conhecida, mas já ameaçada de extinção. “No caso das espécies dos Campos de Cima da Serra, o peixe exótico truta- arco-íris (Oncorhynchus mykiss) pode ser uma ameaça potencial e deve estar se alimentando dos lagostins juvenis. O aumento da área da agricultura e os agrotóxicos utilizados também impactam as espécies,” explicou Felipe. Além dos impactos enfrentados pelas espécies no meio rural, Kelly destacou a ameaça sofrida no meio urbano. “Na região metropolitana de Porto Alegre, populações de lagostins ainda são encontradas, no entanto a descaracterização do ambiente, devido à drenagem de áreas úmidas para construção civil e o despejo de esgotos nos arroios, confere a maior ameaça verificada durante as amostragens,” disse.

Por outro lado, na zona urbanorural da capital, viu-se que nas propriedades voltadas à produção orgânica e ao ecoturismo, esses animais eram conhecidos e protegidos pelos proprietários.

Outro impacto que chamou a atenção da pesquisadora em uma localidade dos Campos de Cima da Serra foi o pisoteio do gado que compacta o solo, dificultando a escavação pelos lagostins. Já Felipe destacou ainda o uso de lagostins como isca de pesca, em Santa Catarina. No Chile, informou, uma das ameaças é o consumo, mas no Brasil não há registro do uso destes animais na alimentação humana.
 

Passos seguintes
As teses de Felipe e Kelly têm origem no projeto “Ecossistemas límnicos continentais e conservação dos lagostins de água doce do gênero Parastacus no Sul do Brasil”, parceria entre CAPES e a Universidade de Poitiers (França), que custeou as saídas em campo. Felipe aprofundou-se na taxonomia e filogenia das espécies e concluiu o primeiro artigo da sua tese, com a descrição e avaliação do estado de conservação de duas espécies novas, o qual será submetido à publicação em uma revista da área da zoologia. Ainda neste mês, ele viaja para a Alemanha onde realizará doutorado-sanduíche por um ano. Kelly permanece em Porto Alegre, onde realiza coletas na região metropolitana e estuda as características do ambiente onde espécies ocorrem.

Para a professora do PPG Biologia Animal da UFRGS, orientadora das duas teses, Paula Beatriz Araujo, a pesquisa está proporcionando uma maior compreensão sobre a diversidade das espécies de lagostins de água doce e sobre os tipos de ambientes onde vivem.

“Felipe traz informações taxonômicas e ambientais bem precisas, as quais estão sendo utilizadas pela Kelly para a modelagem de distribuição das espécies e uma projeção sobre o futuro delas, além de sugestões sobre medidas para conservar o ambiente com as características importantes para as espécies,” afirmou.
 

Rede Campos Sulinos - EcoAgência

  
  
  
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