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Biotecnologia

Terça-feira, 11 de Fevereiro de 2014

 
     

Brasil a ponto de liberar mosquitos transgênicos contra a dengue

  

Até o momento não foram apresentados resultados conclusivos dos milhões de Aedes aegypti transgênicos liberados experimentalmente sobre a população da periferia de Juazeiro, Bahia

  

APública    
Mosquitos transgênicos libertados em Mandacaru em 2013


Por AS-PTA

Na semana que passou o Brasil esteve perto de ser o primeiro país do mundo a autorizar o uso comercial de mosquitos geneticamente modificados como suposto meio para e combater a dengue. Suposto porque até o momento não foram apresentados resultados conclusivos dos milhões de Aedes aegypti transgênicos liberados experimentalmente sobre a população da periferia de Juazeiro, Bahia. Aliás, pelo menos para aquele local pode-se afirmar que é tarde para qualquer preocupação quanto aos riscos. Esperemos que eles não existam.

A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio está dividida em duas subcomissões. Na setorial de saúde humana e animal o pedido da empresa Moscamed com a inglesa Oxitec e a Universidade de São Paulo foi aprovado mesmo antes do encerramento das pesquisas. Resultados preliminares, aparentemente não referendados pela CTNBio, foram entendidos como suficientes. Deve-se destacar que essas liberações experimentais no meio ambiente são indispensáveis para a elaboração de um pedido de liberação comercial de qualquer organismo geneticamente modificado, segundo a lei de biossegurança. No caso dos mosquitos trata-se de apenas dois experimentos ainda não concluídos e, portanto, sem resultados conclusivos.
Para além da ausência dos dados também merece destaque o fato de que os membros da CTNBio que elaboraram o parecer pela aprovação não estavam presentes na reunião para responder perguntas dos colegas que não visitaram o local ou que não tiveram acesso aos documentos da pesquisa. As questões de outros integrantes da setorial foram respondidas por representante da empresa que assistia a reunião. A convite da coordenadora da sessão e à revelia das normas da casa o representante da empresa tomou o microfone para esclarecer dúvidas, defendendo sua mercadoria. Depois de suas falas, atestando a excelência e segurança do produto, salvo uma abstenção, os componentes da subcomissão decidiram pela aprovação.
Quando a liberação experimental estava sendo avaliada, um integrante da comissão emitiu parecer contrário ao pedido alertando para o fato de que a presença de tetraciclina (antibiótico muito utilizado em criações animais) no meio ambiente elimina o sistema de controle para a multiplicação dos mosquitos transgênicos, permitindo que mosquitos fêmeas também sobrevivam, entrem em contato e piquem a população local, e não só os machos, que (além de não picarem pessoas) são estéreis e teriam a função de cruzar com fêmeas nativas, evitando a geração de prole.
Já na outra setorial, formada pelas subcomissões Ambiental e Vegetal, o pedido não foi aprovado. Após debate, os membros se dividiram entre aqueles que consideravam necessária a apresentação dos relatórios das avaliações de campo e aqueles que pretendiam votar a liberação comercial. Após a votação (7 x 7, com abstenção do presidente), o processo foi retirado de pauta. Como um processo de liberação comercial só vai à votação em plenária após passar pelas duas subcomissões, a questão voltará em março.
É interessante observar que o representante do Ministério da Saúde votou a favor da liberação mas não soube explicar qual a posição do órgão que ali representa em relação ao mosquito transgênico como estratégia para combate à dengue. Ficou de levar a informação na próxima reunião da comissão.
 
Ler "Mosquitos transgênicos no céu do sertão", reportagem da Agência Pública e Coletivo Nigéria realizada em 2013 
AS-PTA - EcoAgência

  
  
  Comentários
  
Paulo Andrade - 11/02/14 - 14:52
A maior parte das críticas se prende a questões de rito na CTNBio, mostrando o lado clerical, burocrático e anti-científico desta associação. Pouca coisa relevante para a avaliação de risco é comentada. A notícia peca em diversos aspectos, mas se entende porque, afinal, a AS-PTA não é especialista nem em entomologia, nem em controle de vetores de doenças endêmicas e nem em avaliação de risco de OGMs. Para começar, há resultados conclusivos sobre biossegurança e avaliação de risco, que é o que interessa agora. E estão no dossiê de liberação comercial, que é público. Estes resultados foram produzidos no Brasil, em Juazeiro, ao longo de mais de dois anos. Se o relatório final da liberação planejada, de onde vieram os dados que estão no dossiê, não foi apresentado à CTNBio, isso não invalida a análise feita pelos membros, uma vez que o que consta do dossiê mencionado é suficiente para a tomada de decisão. Além disso, como experts, os membros avaliam os dados, independentemente de qualquer votação prévia da CTNBio sobre o assunto e cabe a eles decidir se os dados são concretos e suficientes ou se é preciso mais dados ou esclarecimentos adicionais. Não há nada errado nem suspeito neste rito, e muito menos está a biossegurança comprometida. Após a entrega do relatório podem surgir novas informações interessantes à ciência; porém, para a avaliação de risco, que tem um escopo muito mais definido e estreito, as que já foram apresentadas bastam. Para quem acompanhou de perto as liberações planejadas salta à vista que não são apenas dois experimentos, como insinua a notícia da AS-PTA, mas um largo leque de ações com geração de dados importantes. Afinal, para mosquitos, cada liberação de um lote é diferente da outra: temperatura, ventos, local, chuvas, época do ano, todas são variáveis sujeitas a análise, o que diferencia muito uma liberação planejada deste tipo daquelas que a CTNBio está habituada a analisar com as plantas. A argumentação de que há poucos dados gerados é completamente falsa. Por fim, é fantasiosa a hipótese de que haverá tetraciclina em concentrações suficientes para garantir a sobrevivência dos mosquitos nas águas servidas onde este poderia se criar. Em nenhuma parte do mundo isso ocorre, segundo larga bibliografia disponível e citada no parecer consolidado da setorial vegetal/ambiental. Na verdade, não há porque se esperar que a tetraclina esteja sequer presente, uma vez que hoje este antibiótico é empregado em larga escala apenas em criações industriais de animais, o que não existe em área urbana. Quanto a aprovação do pedido, a notícia também é errada: o que foi votado foi a continuação da análise naquela reunião, e não se chegou a uma maioria pois o presidente se absteve de votar. Apenas isso. Quanto ao representante do Ministério da Saúde, está ele em total sintonia com avaliação de risco do mosquito GM, uma vez que sua aplicabilidade no controle da dengue não está em pauta na CTNBio. O que ocorreu foi apenas um patrulhamento dos oponentes tradicionais da biotecnologia, que encurralaram o colega na reunião, bem ao estilo da velha ditadura, com a qual, em comportamento, eles tanto se afinam. Isso já tinha sido evidenciado ao tempo da votação do feijão transgênico da EMBRAPA. Quem não se recordar, pode olhar lá no GenPeace.
  
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