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Pesquisa científica

Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2015

 
     

Em breve, os alimentos terão embalagens ao “gosto” dos consumidores

  

A pesquisadora da Embrapa, Henriette Azeredo, apresenta a tecnologia que está em desenvolvimento para contribuir com a redução do volume de embalagens de alimentos e, por consequência, os impactos ambientais provocados pelo descarte dos materiais convencionais

  

Divulgação Embrapa    
Pesquisadora Henriette mostra um filme de pectina com suco de romã


Por Eliege Fante - especial para a EcoAgência

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Embrapa, está desenvolvendo embalagens comestíveis com o objetivo principal de diminuir a quantidade de lixo gerado. Estas embalagens deverão servir como primárias e as embalagens externas deverão ser mantidas. A embalagem será parte do alimento e estará sujeita às mesmas normas de segurança.

A engenheira de alimentos e doutora em Tecnologia de Alimentos, Henriette Azeredo, concedeu à EcoAgência uma entrevista por email. Neste momento, ela atua como pesquisadora do programa da Embrapa “Labex Europa” no Institute of Food Research, Inglaterra. A seguir, Henriette vai abordar diversos aspectos das embalagens comestíveis, algumas usando recursos de nanotecnologia, que pode torná-las mecanicamente mais resistentes ou pode conferir propriedades ativas, como a capacidade de inativar microrganismos.


EcoAgência - Qual a motivação inicial para realizar a pesquisa sobre as embalagens comestíveis?

Henriette Azeredo -  A motivação é a busca de embalagens ambientalmente corretas, sejam elas comestíveis ou simplesmente biodegradáveis, de forma a reduzir o impacto ambiental negativo causado pelo descarte maciço de embalagem de alimentos. Mesmo que as embalagens comestíveis não substituam totalmente as convencionais, elas podem reduzir o volume de embalagem não-biodegradável usado para cada aplicação.
 
EcoAgência - Por que pesquisar a nanotecnologia voltada aos alimentos?

Henriette Azeredo - Quando se trata de materiais (incluindo os de embalagem), a nanotecnologia pode ter diferentes aplicações. Uma delas é a incorporação de nanoestruturas para melhorar as propriedades mecânicas e de barreira, que resultam em um melhor desempenho do material em sua função de proteção. Outra aplicação da nanotecnologia envolve a adição de nanoestruturas que conferem propriedades ativas ou inteligentes ao material, que passa a constituir uma embalagem ativa ou inteligente. Embalagens ativas e inteligentes não envolvem necessariamente nanotecnologia (os compostos ativos ou inteligentes não são necessariamente adicionados em forma de nanoestruturas), mas o uso da nanotecnologia pode ajudar o desempenho das funções ativas ou inteligentes, já que as nanoestruturas têm maior relação área de superfície/volume, o que permite que elas sejam eficazes a baixas concentrações.
 
EcoAgência - Que peso tem na pesquisa a finalidade de desenvolver embalagens menos poluentes e prejudiciais no ambiente em relação a desenvolver embalagens nutritivas e saudáveis?

Henriette Azeredo - Considerando que a embalagem representa apenas uma pequena fração (em volume ou massa) do alimento ingerido, eu diria que o apelo à saúde não é tão importante. O alimento deve ser saudável; a embalagem, não necessariamente.
 
EcoAgência - Em uma notícia (Embrapa), divulgou-se que os biopolímeros seriam produzidos a partir de resíduos da indústria alimentícia, restaurantes, panificação. Em outra notícia, afirma-se que seriam fabricados a partir de soja, milho, cana-de-açúcar, celulose e soro de leite, entre outros. Existe a possibilidade de haver um excesso de ingestão humana destes alimentos já que a soja e o milho, principalmente, já estão entre os ingredientes de diversos produtos alimentícios (de chocolate infantil à cerveja do adulto)?

Henriette Azeredo - Dois pontos: quando se extrai um biopolímero de uma fonte natural (por ex., amido de mandioca, zeína de milho etc.), você está isolando o componente que te interessa, que é o biopolímero. Uma embalagem feita de amido de mandioca não vai conter todos os componentes da mandioca, mas apenas o amido. Outro ponto é que (como já citei) a embalagem representa uma fração pequena do alimento. Se alguém ingerir excesso de algum alimento, certamente não será por causa da embalagem... 
 
EcoAgência - O que faz um polímero ser natural e um polímero ser artificial (plástico), considerando que os polímeros sintéticos derivam do petróleo, que é natural assim como os resíduos dos alimentos utilizados como matéria-prima para a fabricação das embalagens comestíveis?

Henriette Azeredo - Chama-se geralmente de natural um composto que é encontrado na natureza como tal. O amido existe na mandioca; quando você o extrai, está apenas separando esse amido dos demais componentes da mandioca, mas não está sintetizando (“fabricando”) o amido. Os polímeros sintéticos (“artificiais”) não são simplesmente separados da matéria-prima, mas são sintetizados em laboratório a partir da matéria-prima. Por exemplo, o polietileno é obtido a partir de um processo de polimerização do gás etileno, que é um subproduto do processamento do petróleo. Ou seja, você não encontra o polietileno no petróleo, mas sim o etileno, a partir do qual você produz quimicamente o polietileno.
 
EcoAgência - O fato de um polímero ser natural garante que seja biodegradável? Há testes comprovando isso ou em andamento? Quanto tempo estes testes vão durar?

Henriette Azeredo - Não me lembro de nenhuma exceção, portanto acho que todos os polímeros naturais são biodegradáveis. Mas nem todo polímero biodegradável é natural. Alguns polímeros sintéticos são biodegradáveis, como o poli (ácido láctico) e a policaprolactona.
 
EcoAgência - Por se tratar de um novo organismo/material na natureza, que garantia temos de que os microorganismos vão assimilar estes polímeros no ambiente e que garantia temos de que o resultado desta assimilação não desencadeará um processo desconhecido (cujas consequências também seriam imprevisíveis e não necessariamente seguras)?

Henriette Azeredo - Os polímeros biodegradáveis são assim chamados porque os microrganismos os degradam, então a pergunta é circular. E esses materiais não são novos na natureza, eles apenas estão sendo usados para uma nova aplicação. Ou seja, o processo de degradação já ocorre normalmente. Então, não há consequências desconhecidas, a não ser que se comecem a usar materiais biodegradáveis novos, cujos produtos de degradação não sejam conhecidos.

EcoAgência - Poderias nos citar um exemplo de material biodegradável novo? A partir de qual matéria-prima poderia ser desenvolvido?

Henriette Azeredo -  Na verdade, quando falei em “materiais biodegradáveis novos”, eu estava apenas fazendo uma suposição de que novos materiais possam ser explorados no futuro. Ou seja, não tenho nenhum exemplo.

EcoAgência - É possível fazer um prognóstico sobre os possíveis impactos ou consequências do uso desta tecnologia na alimentação diária?

Henriette Azeredo - Mais uma vez, quando alguém ingere uma embalagem comestível, nada de novo há ali – apenas uma embalagem formulada com compostos que já são usados geralmente na alimentação. Obviamente, se você tem uma embalagem desenvolvida a partir de um composto pode provocar reações alérgicas em certas pessoas (como acontece com as proteínas do leite), a embalagem vai ser um veículo de alergia, da mesma forma como seria o leite.
 
EcoAgência - Havendo a distinção hoje entre alimentos transgênicos produzidos com agrotóxicos e alimentos produzidos com sementes crioulas através de técnicas agroecológicas, qual o material entre estes dois vem sendo utilizado para a construção destes polímeros em laboratório?
 
Henriette Azeredo - Bom, aí parece haver uma confusão de conceitos... Um alimento transgênico não é necessariamente produzido com agrotóxicos. Transgenia é o nome que se dá a técnicas de engenharia genética que produzem plantas modificadas. Uma vez que a planta seja produzida, ela pode ser tratada com agrotóxicos ou com adubos orgânicos. Aliás, um dos focos das técnicas de transgenia é justamente tornar as plantas mais resistentes a pragas e infecções, o que poderia permitir a redução do uso de agrotóxicos.
De qualquer forma, qualquer tipo de planta (transgênica ou nativa, produzida com adubos orgânicos ou agrotóxicos) pode ser usada para a extração de biopolímeros. A técnica de produção não afeta o processo de extração do biopolímero.

EcoAgência - Compreendo a sua explicação sobre o conceito de transgenia, porém no Brasil, a soja e o milho transgênicos são produzidos maciçamente com o uso de agrotóxicos. De ambos a indústria produz, por exemplo, óleo que carrega o “T” na embalagem e, apenas da soja é extraída a lecitina que está presente hoje em praticamente todo o alimento processado pela indústria. Por isso, desejamos saber se a matéria-prima da sua pesquisa é transgênica ou não transgênica? Ou as duas estão sendo utilizadas?

Henriette Azeredo – Como eu disse, não há distinção, a matéria-prima pode ser transgênica ou não, isso é indiferente.

EcoAgência - A partir da suposta aprovação desta tecnologia para a comercialização, há a perspectiva de produzir estes polímeros a partir de produtos transgênicos e polímeros a partir de alimentos orgânicos seguindo a tendência do mercado de diferenciação?
 
Henriette Azeredo - Sim, como eu disse na resposta anterior, isso não faz diferença para a obtenção do biopolímero. Se a matéria-prima é transgênica ou não, e se a produção é orgânica ou não, isso é completamente indiferente para a extração de biopolímeros.

EcoAgência - Quais são os padrões incorporados de segurança e higiene no processo de fabricação das embalagens comestíveis?

Henriette Azeredo - Exatamente os mesmos adotados para alimentos. Uma vez que uma embalagem é comestível, ela passa a ser (do ponto de vista da legislação) um alimento, e está sujeita às mesmas normas de segurança e higiene que qualquer alimento.
 
EcoAgência - Considerando que existem pessoas vegetarianas, alérgicas à determinadas substâncias, veganas, vai ser possível rotular os ingredientes que compõem a embalagem comestível já que testaram filmes a partir de quitosana (polissacarídeo encontrado em crustáceos) e gelatina? No caso de obesos vai ser possível saber as calorias presentes no produto já que a embalagem vai “fazer parte da refeição”?
 
Henriette Azeredo - Se houver qualquer composto alérgeno na composição de uma embalagem comestível, isso tem que ser informado no rótulo, da mesma forma que seria informado caso o composto estivesse no alimento. Repetindo, uma embalagem comestível passa a ser tratada como parte do alimento – qualquer norma que se aplique ao alimento passa a ser aplicado à embalagem.

EcoAgência - Na linha das embalagens ativas, estão pesquisando materiais que absorvam “compostos indesejáveis ou liberando substâncias que favorecem o aumento da estabilidade” ou seja, “embalagens que liberam compostos antimicrobianos”. Que testes estão sendo feitos para avaliar o nível de segurança à ingestão humana levando em conta que este produto absorveu/assimilou um microorganismo que poderia fazer mal ao ser humano?

Henriette Azeredo - Uma embalagem antimicrobiana teria exatamente o objetivo de inativar esses microrganismos, ou seja, a segurança seria MAIOR.

EcoAgência –Qual o mecanismo ou substância é responsável por esta inativação? Conhecemos algum exemplo?

Henriette Azeredo -  Os microrganismos são inativados (mortos) por compostos antimicrobianos, que têm diferentes mecanismos de ação (alguns projudicam as funções das membranas celulares, outros desregulam mecanismos metabólicos essenciais à vida dos microrganismos etc.) Existem vários compostos antimicrobianos que são permitidos pela legislação e amplamente usados como conservantes em alimentos, sendo os mais comuns os ácidos orgânicos e seus sais, como o ácido sórbico e ácido propiônico.
 
EcoAgência - Os plásticos não substituíram o vidro, o metal e os materiais celulósicos (papel, papelão, celofane) nas embalagens. Apesar de serem flexíveis, leves e descartáveis (o que inicialmente pode ter sido visto como bom pela sociedade), são constituídos de substâncias como parabenos, ftalatos e bisfenol A, dentre outras, poluentes quando estão nos ecossistemas e perigosas para a saúde humana conforme pesquisas relacionam ao câncer, aos problemas hormonais, etc. Haverá algum benefício neste sentido se passarmos a embalar os alimentos com os materiais comestíveis que estão desenvolvendo?
 
Henriette Azeredo - Antes de mais nada, a legislação para materiais em contato com alimentos prevê limitações para a presença e/ou quantidade de qualquer composto virtualmente nocivo à saúde, mas esse é outro assunto. Mas, novamente, tenho que te lembrar que, como eu disse antes, as embalagens comestíveis não são feitas para substituir (totalmente) as embalagens convencionais, mas para ajudar na função de proteção, diminuindo a quantidade de embalagem convencional necessária para cada aplicação (mas não eliminando).

EcoAgência - Serão feitos testes em humanos que evidenciem a segurança na ingestão destes materiais, já que os testes em animais sugerem efeitos/consequências mas não dão a real dimensão já que as espécies são diferentes? Se estiverem fazendo testes com animais, por favor, informem os procedimentos e o tempo (dias, meses, anos) para obter um resultado seguro.

Henriette Azeredo - Novamente: os materiais usados para embalagens comestíveis já são consumidos como parte dos alimentos, e sua segurança já está mais que provada. Claro que, se houver na embalagem um composto que não seja geralmente ingerido, a segurança tem que ser avaliada, como tem sido feito para nanocristais de celulose.

EcoAgência - Para que produto estão sendo pesquisados os nanocristais de celulose? Qual seria um exemplo de teste de segurança?

Henriette Azeredo -  Os nanocristais de celulose já foram testados em filmes de vários biomateriais, como quitosana, gelatina, polpa de manga com pectina etc. Eles tornam os materiais mais resistentes, e geralmente com melhor barreira à umidade. A Embrapa lidera a Rede de Nanotecnologia Aplicada ao Agronegócio, que conta com vários pesquisadores (inclusive alguns externos à Embrapa), e existem equipes destinadas a fazer os testes de toxicidade de nanoestruturas, incluindo os nanocristais de celulose. Apesar de a celulose (nativa) já ser amplamente consumida nos alimentos, os nanocristais de celulose (por serem muito pequenos) devem passar por testes de segurança, que permitem avaliar se eles seriam capazes de atravessar barreiras celulares e, caso as atravessem, que consequências poderia haver. Até o momento, os testes realizados indicam que os nanocristais de celulose são seguros. No entanto, não tenho maiores detalhes sobre as técnicas dos testes, já que não é minha área de atuação.
 
EcoAgência - O vidro é o material que é utilizado há centenas de anos, sobre o qual não pairam dúvidas até o momento com relação à proteção que oferece aos alimentos – não deixa cheiro, gosto, nem muda a aparência, as compotas duram alguns meses e conservando as propriedades nutritivas dos alimentos. Por que não empregar a nanotecnologia para encontrar formas de utilizar o vidro para embalar alimentos com segurança e, no caso de acidentes evitar cortes?

Henriette Azeredo - O vidro é um material de proteção por excelência, ninguém tem dúvida disso. O vidro não interage com os alimentos, não é permeável a gases e umidade, enfim, tem uma proteção quase perfeita (exceto à luz), desde que o sistema de fechamento seja bem selado. E ainda é totalmente reciclável, retornável etc. Os problemas são: o alto preço, a alta densidade (é muito pesado, o que encarece o transporte), e a fragilidade a quebras. Existem ações de pesquisa em nanotecnologia para vidros, apenas não sei se te dizer os detalhes, já que não trabalho com isso.
 
EcoAgência - Podemos dizer que as embalagens ativas e inteligentes que são construídas em laboratório a partir de substâncias naturais são organismos naturais e que por isso biodegradáveis? O fato de denominarmos essas embalagens como “tecnologias” não significa que só existem no ambiente porque nós as manipulamos/transformamos, deixando com isso de ser naturais?

Henriette Azeredo - Quando você fala em “organismos naturais”, parece estar falando de seres vivos, o que não é o caso. Além disso, não acho que se possa dizer que uma embalagem comestível é natural, já que ela não é encontrada na natureza sob aquela forma. Ela continua sendo um material construído a partir de substâncias naturais, mas ela em si não é natural, da mesma forma como um queijo não é natural (embora seja feito a partir de componentes naturais). O que você encontra na natureza é o leite, não o queijo...

EcoAgência - Mas o queijo é biodegradável e os outros animais da natureza podem utilizá-lo como alimento. Quanto tempo a embalagem comestível leva para se biodegradar na natureza?

Henriette Azeredo -  Não sei, mas isso depende dos materiais usados e das condições do solo, entre outros fatores. Não há uma resposta pronta para isso, mas geralmente a degradação ocorre em algumas semanas.

EcoAgência - Há previsão da embalagem comestível apresentar gosto ou sabor? O uso de variadas matérias-primas pode interferir no gosto ou no sabor?

Henriette Azeredo -  Já desenvolvemos filmes com polpas de frutas (como polpa de manga e polpa de acerola), que têm sabor das respectivas frutas. Tanto a Embrapa Agroindústria Tropical (Fortaleza) quanto a Embrapa Instrumentação (São Carlos) têm trabalhos nessa linha.
 

EcoAgência

  
  
  
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