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Poluição

Quarta-feira, 08 de Novembro de 2017

 
     

Audiência pública coloca frente a frente moradores de Guaíba e direção da Celulose Riograndense

  

Representantes da comunidade confirmaram denúncias de mau cheiro, barulho e poeira com produtos químicos que afetam bairros próximos à fábrica

  

EcoAgência    
Debate foi promovido pela Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa


Por Ulisses A. Nenê - Especial para a EcoAgência

A Sala Adão Pretto, na Assembleia Legislativa, ficou completamente lotada, na manhã desta quarta-feira (08), durante audiência pública que colocou frente a frente a direção da Celulose Riograndes e grande número de moradores da cidade , principalmente das comunidades vizinhas à fábrica.

Convocada pelo presidente da Comissão de Saúde e Meio Ambiente, deputado Altemir Tortelli (PT) a audiência tratou dos impactos ambientais causados pela planta industrial, que foi quadruplicada há poucos anos. Representantes da comunidade denunciaram o seu sofrimento diário com o mau cheiro, barulho e poeira tratada com produtos químicos provindos da industria, situada numa área densamente povoada da cidade, à margem do Lago Guaíba.

Em julho, a EcoAgência publicou uma reportagem onde detalha toda esta situação. Este mesmo repórter, na tarde em que foi até lá, sentiu o mau cheiro, ardência nos olhos e um pouco de náusea. A diretoras da Associação dos Moradores do Balneário Alegria (ABA), que estão à frente dos protestos, disseram que o barulho vindo da CR se torna insuportável à noite e prejudica o sono das pessoas que vivem ali.

“O ruído é 24 horas por dia, parece um avião que nunca vai embora, a poeira que adentra nossas casas é tratada com produtos químicos e o (mau) cheiro é constante”, afirmou Carolina Coutinho, uma das diretoras da ABA. “Procuramos diversas vezes a CMPC (nome anterior da CR), tivemos reuniões com a Prefeitura e a Câmara de Vereadores e não fomos bem recebidos, disseram que não podemos perder os empregos e os impostos”, reclamou.

Os deputados, a promotora Anelise Grehs, o prefeito de Guaíba, José Sperotto, vereadores da cidade e demais presentes, também ouviram relatos de que as crianças nas escolas lacrimejam, choram, reclamam de irritação na garaganta e dor de cabeça por causa do ar tóxico: “Meu filho pequeno quando entra no carro (na saída da escola) pede um dorflex (analgésico) porque não aguenta de dor de cabeça, esta é a nossa realidade”, completou a presidente da ABA, Cristiane Simões.

Também apontaram o medo de um acidente de grandes proporções com a caldeira, que já apresentou defeito. “Queremos ar puro, saúde e segurança para nossas famílias”, dizia uma faixa que algumas senhoras seguravam na plateia. “Ampliação desmedida acabou com a qualidade de vida”, dizia outra.

Alta tecnologia

Presidente da CR, Walter Lídio Nunes argumentou que a quadruplicação da planta industrial teve o apoio da cidade, da Assembleia Legislativa e que mais de 500 reuniões foram realizadas com a comunidade. Segundo ele, o investimento poderia ter ido para a Bahia, Minas Gerais ou Espírito Santo.

“Tivemos desta casa uma moção para justificar aos acionistas que a fábrica viesse para cá”, disse. “Também tivemos manifestações de Guaíba, do Poder Judiciário, da sociedade, das igrejas, no sentido de que a localização do projeto fosse lá (em Guaíba)”, completou.

Ele, um técnico e um advogado da empresa também sustentaram que a CR utiliza alta tecnologia, a mais avançada e mais segura do mundo, melhor inclusive que a usada na Europa, como nos países nórdicos e na Finlândia. Disseram ainda que foi instalada uma estação de monitoramento que avaliou que a qualidade do ar na região é boa.

Ausência da Fepam

Foi notada e muito criticada a ausência da Fepam na Audiência Pública. “É incompreensível que a Fepam não esteja presente aqui hoje, mas esse tem sido um padrão, de pouca presença dos órgãos do Estado (na AL), que não é respeitoso com o parlamento e com a comunidade”, criticou o deputado Tarcício Zimermann (PT).

A promotora Anelise Grehs Stifelman, do Núcleo de Resolução de Conflitos Ambientais do Ministério Público (RS), afirmou que a avaliação da questão pelo MP vai ser técnica e jurídica e defendeu um mediação do caso, onde todos cheguem a um acordo. E relatou que o inquérito civil desse caso já soma nove volumes. Quatro estão lotados de emails, fotos e reclamações da comunidade contra a fábrica.

O papelão da audiência ficou por conta do deputado Sérgio Peres (PRB). Ele perguntou a idade de uma senhora, moradora de Guaíba, de 82 anos, que, segundo ele, aparenta boa saúde e isso comprovaria que não há problemas com a qualidade do ar devido à atividade da fábrica.

Outros, como o deputado Ronaldo Santini, o prefeito e um vereador da cidade, relativizaram os impactos sobre a qualidade de vida da população, ressaltando a importância da CR para a economia local e do Estado.

Perda de empregos

Um dos moradores afirmou que as audiências com a comunidade que antecederam a ampliação da fábrica estavam lotadas de funcionários da CR e que o Sindicato da Construção Civil trazia ônibus lotados de trabalhadores de outras regiões para fazerem claque à favor da ampliação.

Antônio Sanzi, cuja família vive no bairro vizinho à fábrica desde os anos de 1940 pelo menos, observou que muitos empregos, tantos quantos a fábrica gerou, foram perdidos em consequência da ampliação da CR. Os problemas que ela trouxe, segundo ele, provocaram o fechamento de diversos estabelecimentos comerciais, como um supermercado, farmácias e diversos armazéns.

Disse ainda que as famílias deverão ser indenizadas pelos prejuízos que estão tendo com a desvalorização do seu patrimônio. Conforme o encaminhamento do deputado Tortelli, nas próximas duas semanas deverá ser organizada a primeira reunião de uma comissão de diálogo, com os moradores, a CR, Ministério Público e a Comissão de Saúde e Meio Ambiente, para tratar de questões pontuais, na busca de soluções aceitáveis para todos.

Kátia Cardoso, uma das lideranças da ABA considerou a audiência muito positiva, “porque foi a primeira em que participou a Comissão de Meio Ambiente, a Câmara de Vereadores teve que participar, assim como pessoas que defendem a emrpesa a qualquer custo”, disse. “Também conseguimos mobilizar muitas pessoas que se manifestaram e também várias ONGs, como Apedema, Greenpeace, Associação do Meio Ambiente Guaíba (AMA), com experiência com esse tipo de problema”, concluiu.

 

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