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Fórum Social Mundial 2010

Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

 
     

É só (?) um arco-íris

  

Enquanto palestras e debates costuravam a temática do seminário do Fórum Social Mundial 2010 - Dez Anos Depois: Desafios e Propostas Para Um Outro Mundo Possível -, uma pequena ilha em meio ao Fórum vivenciava na prática um outro mundo e mostrava que “sim, é possível”. 
 

  

Vera Damian/EcoAgência    
FSM - Aldeia da Paz, com um arco-iris ao fundo: ideais na prática


Por Vera Damian, especial para EcoAgência de Notícias

A Aldeia da PAZ - nome psicodélico que remete para uma utopia futurística – criou uma nação de 350 pessoas de vários lugares e países num espaço delimitado dentro do  Acampamento Intercontinental da Juventude. Ausência de álcool, de cigarros industrializados e de produtos de origem animal. Presença de trabalho e solidariedade. 

"Nunca duvide que um pequeno grupo de cidadãos preocupados e comprometidos possa mudar o mundo. De fato, é só isto que o tem mudado". A frase de Margaret Mead foi exibida e justificada na Aldeia da Paz . Desde  sexta-feira, 22 de janeiro, quando os integrantes começaram a chegar até o dia 27 (quando estive lá) já haviam implementado soluções exemplares.
 
No armazém do cais do Porto, os debates do seminário Nova Agenda de Sustentabilidade apontavam que discursar sobre o antineoliberalismo já não é suficiente. “O grande desafio hoje é colocar a socialização dos bens comuns da natureza no centro da teoria e da prática”, palestrou Fátima Mello (Fase/Brasil).
 
Na Aldeia da Paz não aconteciam palestras nem debates antiqualquercoisa. Só conversas em grupos - sempre em formato de roda - e ações - decididas no coletivo das rodas matinais e por adesão espontânea ao trabalho.

“Informação já temos demais. O objetivo aqui é fortalecer os laços de afetividade e utilizar ferramentas sócio-ambientais para vivenciar”, explica Thomas Lazador, integrante da Aldeia (mestre em Gestão de Políticas Ambientais, mas se apresenta como educador).
 
Com técnicas de bioconstrução o povo da Aldeia montou tendas (uma delas com telhado verde),  banheiro-seco, estação de tratamento para águas residuais (pia de cozinha), composteira para os resíduos orgânicos, construiu um fogão e um forno de barro de baixo consumo de lenha.
 
Paradoxos

Falou-se tanto em todas as edições dos FSM na importância do cuidado com as crianças. A Aldeia pode ter tido o único espaço – Espaço das Abelhinhas - que se preocupou em cuidar das crianças para que os pais participassem de outras atividades. Não só cuidar - passear, brincar, tomar banho de piscina de lama, decorar o fogão de barro  com botões .... “Nestes poucos dias, minha filha  de dois anos já começa a entender sobre a importância de incluir o outro – o que tu acha mamãe, pergunta mamãe o que eu acho. É muito lindo”, conta Sieli Pontalti, uma das cuidadoras. 
 
Nos 10 Anos de Fórum falou-se muito em Economia Solidária. Na Aldeia todos os dias às 18 horas é montada a tenda de trocas com de tudo um pouco, inclusive de sementes crioulas para garantir a segurança alimentar. Mais que troca, propõe-se um exercício de desapego para o reuso, reciclagem, redução de consumo.
 
Na Aldeia da PAZ ninguém passa fome. A cozinha comunitária serve diariamente cerca de 900 refeições da culinária vegana (sem produtos de origem animal). A compra dos insumos é feita com os recursos do “Chapéu Mágico”, que roda livremente para arrecadar. Dê o que dê.
 
Na Aldeia da Paz não se lamenta sobre o monopólio da grande mídia. Criou-se uma Produtora Cultural Colaborativa que ficou responsável  pela rádio do Acampamento da Juventude -  notícias, entrevistas, músicas...
 
Quem passar pela produtora se depara com a placa : “Oferecemos gravação de áudio, vídeo, videoclip, páginas na internet, criação de logotipos, folders”. A produção é de voluntários. A veiculação é feita em sites, rádios web, fanzine e redes sociais na internet, acabando por atingir milhares (sem conta) de pessoas. Um público que pode ser até maior que o das grandes mídias convencionais. 
 
Um dos idealizadores é Pedro Jatobá, assessor de cultura digital de uma ong voltada para a sustentabilidade dos artistas.
É dele que vem o que deveria ser o resumo prático dos 10 anos do FSM: “Queremos que tudo isto aqui da Aldeia da PAZ se torne verdade lá fora.”
 
A Aldeia da Paz encerra as atividades domingo com o compromisso de deixar o seu território  mais asseado e organizado do que foi recebido.
 
Esta é a quinta participação da Aldeia da Paz no FSM, a mais organizada, mas também pode ser a última. A idéia agora é plantar  a bandeira da Paz  e acender o foto sagrado em algum lugar do país, de forma permanente.
 
A bandeira da Paz foi  trazida desde o México pelo peregrino Oscar Tinajero para o FSM em 2001.  Ele viaja com a bandeira desde 1996, quando a recebeu no encontro Diálogos de Paz, promovido pelo Exército Zapatista.
 
Segundo ele, “os três círculos significam a integração da ciência, arte e espiritualidade, bem como o físico, o emocional e o mental como elementos formadores de uma só cultura planetária.” A bandeira é reconhecida pela ONU e está presente em vários países.
 
Considerado um ícone da Aldeia da PAZ, Oscar é sintético ao avaliar o FSM: “falar é bom para abrir a consciência, mas faz falta o passo seguinte. A verdadeira mudança vem de si mesmo e só cada um pode fazê-la. A Aldeia está nos ensinando o caminho do arco-iris”.

 

 

  
  
  
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Autorizada a reprodução, citando-se a fonte.
 
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