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Juruna e Rio Xingu, vidas ameaçadas

Terça-feira, 26 de Setembro de 2017

 
     

Canoada expõe impactos de empreendimentos na Volta Grande do Xingu - Primeira parte

  

Drama e resistência. Nessa dualidade um grupo de ambientalistas, pesquisadores, imprensa e indígenas da etnia Juruna participou da 4ª Canoada Xingu, realizada de 4 a 9 de setembro na Volta Grande do Xingu, no Pará

  


Por Adriane Bertoglio Rodrigues - especial para a EcoAgência

A expedição é organizada pelo Instituto Socioambiental (ISA) e Associação Yudjá Mïratu, da Volta Grande do Xingu (Aimix) e reuniu, nesta edição, mais de 80 pessoas.

Nos 110 quilômetros entre Altamira e as terras indígenas Ilha da Fazenda, Paquiçamba e Muratu, os participantes, remando em canoas tradicionais, conferiram de perto os impactos e as alterações provocadas pela construção de Belo Monte, ou Belo Monstro, como os Juruna se referem a esse empreendimento, que trouxe, como consequências, a redução da vazão do Rio Xingu, a mortandade de peixes, árvores ressequidas e mortas na área do barramento, aquecimento da temperatura, temporais e ventos fortes e a voraz proliferação de caparanãs, um mosquito de menos de 1cm e que tem apresentado resistência a alguns repelentes.

 

Durante os seis dias de expedição e sob um sol que refletia uma sensação térmica de mais de 40º C, encarando algumas corredeiras no Rio Xingu e obstáculos por terra, que testaram ainda mais a resistência dos Juruna e dos participantes, a troca de experiência e conhecimentos e o contato com a cultura desse povo tradicional fortaleceu ainda mais a luta pela redução dos impactos de Belo Monte e pelo impedimento à construção de Belo Sun, um empreendimento canadense de mineração que ameaça, com o mesmo discurso da Norte Energia, a vida dos povos tradicionais e ribeirinhos do Xingu no Pará.

 

“A 17 kms de onde está instalada a terceira maior hidrelétrica do mundo, por que a maior mineradora do mundo não pode se instalar”, questiona, ironizando o possível destino da região, a advogada do ISA, Bivyany Rojas Garzon. A ameaça de Belo Sun se concretiza, já que, em fevereiro deste ano, o Governo do Pará concedeu licença prévia de instalação, suspensa duas vezes, porque sua instalação está prevista a menos de 10 kms de terras indígenas, com o desejo de explorar jazida de ouro. “Não há quem informe os principais impactos previstos com essa obra, que surge com muitas irregularidades”, critica Bibyany.

 

Barragem, cemitério de árvores e peixes

É chocante remar por entre copas de árvores secas e mortas, sabendo que até novembro de 2015 o Rio Xingu seguia seu fluxo, com uma vazão média de 23 mil metros cúbicos de água por segundo, variando de forma natural entre os períodos de seca e cheia. Foi em novembro de 2015 que o Ibama emitiu licença para reservação e desvio da água do rio pelo canal à Norte Energia, consórcio que administra a usina.

 

Agora, após o barramento da usina de Belo Monte, a parte “baixa” do Rio Xingu, conhecida como Volta Grande do Xingu, onde vivem os Juruna, recebe menos água, ou seja, sua vazão em abril, por exemplo, mês mais chuvoso naquela região, caiu para 8 mil metros cúbicos de água por segundo, “o que inviabiliza a vida dos animais na floresta”, observa a bióloga Cristiane Carneiro, que há quatro anos coordena com os Juruna o monitoramento paralelo dos impactos de Belo Monte.

 

Doutoranda em Ecologia Aquática e Pesca pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Cristiane explica que o consórcio prevê, a partir de 2019, instalar a última turbina, intercalando duas vazões, de 8 e de 4 mil metros cúbicos de água por segundo, consideradas muito baixas, comprometendo o modo de vida, a navegação, a pesca e a fauna aquática da Volta Grande do Xingu, denuncia Cristiane. A bióloga defende no mínimo uma vazão de 12 mil m3 de água/segundo. “Vamos discutir com o Ibama e a Agência Nacional das Águas este mínimo de vazão, para que estes povos e o ambiente se mantenham”, afirma.

 

Mas os danos não acabam por aí. Três meses depois do barramento, já em fevereiro de 2016, houve uma grande mortandade de peixes, que migravam rio acima para desova. “Os peixes batiam nas turbinas e morriam”, lembra Cristiane, que critica o relatório da Norte Energia, que calcula, até março deste ano (2017), entre a construção e o início da operação de Belo “Monstro”, a morte de mais de 20 toneladas de peixes. “Essa quantidade deve ser bem maior, pois muitos peixes deixaram de desovar, já que o período reprodutivo é a partir de janeiro, quando fazem a migração”, observa.

 

Cristiane e os Juruna calculam mais de 30 mil toneladas de peixes mortos, incluindo Tracajás, que são pequenas tartarugas, e peixes como os Curimatãs, “que não souberam subir a escada de R$ 7 milhões, para chegar até o reservatório principal, uma grande área sem alimentação e sem área propícia para a desova”, ironiza.

 

Para a pesquisadora, a ictiofauna do Xingu está comprometida, afetando a pesca e o modo de vida das comunidades, bem como seu alimento e renda. Além disso, ela lamenta a proliferação dos mosquitos carapanãs, que ficam por mais tempo na água parada dos pedrais, que com o barramento estão expostos nas margens do Xingu.

 

Canoada militante 

Ariane Sudatti, advogada e especialista em Direito e Teoria Literária, e o marido Márcio Selligmann, professor de Literatura da Unicamp, participam da Canoada pela segunda vez. Foram eles que mobilizaram amigos e alunos e arrecadaram dinheiro para garantir a inclusão digital dos indígenas.

 

“Com 100% de adesão no curso, os Juruna venceram o isolamento e passaram a usar os computadores, que estavam parados, como instrumento de denúncia. A partir de um trabalho de inclusão digital com alunos da Unicamp, o monitoramento dos peixes do Rio Xingu também passou a ser digital”, comemora Ariane, que desta vez coordena a arrecadação de dinheiro entre os participantes da quarta Canoada para a aquisição de um notebook para edição de vídeos e capacitação de indígenas para esse trabalho, e que será entregue nos próximos dias.

 

“Estabelecemos vínculos de amizade e de compromisso nessa luta com trabalho e envolvimento emocional com esse povo”, analisa Ariane, ao destacar ser “muito legal a experiência de conviver com eles na aldeia. São lindos, simpáticos e guerreiros”, afirma.

 

Inserção e engajamento

Trazer a Ciência para dentro das questões indígenas é um avanço na quarta edição da Canoada, que teve a presença de arqueólogos, geólogos e biólogos, entre outras profissões, como psicólogos, juízes e jornalistas, de diversas regiões do Brasil.

 

“É muito bom que as pessoas venham e vejam a realidade do que vivemos hoje. Assim é possível conseguir parcerias, que ajudam muito a comunidade, como a internet na escola e a Casa do Artesanato, que tiveram o apoio dos participantes da Canoada do ano passado”, destaca Jair Jacinto Pereira Juruna, 27 anos, que participa da Canoada como remador desde a primeira edição. Segundo ele, que é professor da língua indígena na comunidade, da segunda edição em diante o percurso mudou por causa da Barragem. “Para cima tem muita água e para baixo, pouca”, observa, ao lamentar a grande perda de peixes, em especial dos Tracajá. “Para não ter muita perda de peixes precisamos do rio cheio e com sua vazão normal”, defende.

 

Um apoio garantido nesta edição da Canoada é a participação de Victor Lopez Richard, cubano, físico e montanhista. Ele, que é coordenador do Programa de Extensão da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), foi convidado pela Aimix e pelo ISA para estruturar roteiros de ecoturismo na aldeia, a partir de um trabalho de gestão de atividades na natureza e em áreas protegidas. “Uma das ideias é formatar e capacitar condutores para esses roteiros, que oferecem vivências na água e na canoa, usando as potencialidades dos Juruna na pesca e preservando o patrimônio cultural desse povo”, analisa.

 

 

Leia também: 

Canoada expõe impactos de empreendimentos na Volta Grande do Xingu – Segunda parte

 

 

EcoAgência

  
  
  
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