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Reportagem Especial

Quarta-feira, 26 de Julho de 2017

 
     

Mortandade das Abelhas (terceira parte - final): Exceções estão longe das lavouras

  

Apicultores que não tiveram o problema mantém suas colmeias afastadas das áreas com agrotóxicos

  

EcoAgência    
Manoel Souza e o filho Marcos, em Porto Alegre


Por Ulisses Nenê - especial para a EcoAgência

Numa comprovação da relação dos agrotóxicos com a mortandade das abelhas, os apicultores que não se queixam do problema são, justamente, aqueles que mantém suas colmeias longe das lavouras.

É o caso dos que costumam vender o mel orgânico na Feira Ecológica da Redenção, na capital, como Manoel Souza, 64 anos, que vem aos sábados de Santo Antônio da Patrulha, onde reside, para negociar o produto.

 

Ele tem 300 colmeias espalhadas por São Francisco de Paula, Taquara, Pantano Grande, Palmares do Sul, produzindo de seis a oito toneladas por ano. Não teve nenhuma ocorrência, até hoje, de mortalidade de abelhas acima do normal.

 

"Tem que escolher bem o local, nessas regiões não têm grandes plantações, não tem nada que tenha pulverização (de agrotóxicos)”, conta. O maior problema, na opinião dele, está nas plantações de soja, que chegam a receber três ou quatro pulverizações de venenos por safra. 

 

Por isso instala suas abelhas em lugares mais isolados e trabalha no sistema de migração, que desloca os enxames de uma região para outra a fim de garantir nutrição adequada para elas. Por exemplo, de outubro a março ele mantém as colmeias na divisa de Taquara com São Francisco. Quando a florada das plantas na Serra está terminando, ele desloca-as para o Litoral, onde a florada está começando.

 

As abelhas são transportadas em caminhões adaptados, protegidos por telas e sombrite. Se não fizer a migração, explica, a colheita do mel cai à metade, por causa do clima e da vegetação inadequada para as abelhas. Elas mal chegam à nova casa e já fazem o reconhecimento da área, num raio de três quilômetros.

 

“Em apenas 20 minutos já estão produzindo mel”, conta Marcos, 35 anos, filho de Manoel. Desta forma, na sua banca, eles colocam à venda uma grande variedade do produto, como o tradicional mel de eucalipto e também de quitoco, uva do japão e aroeira, entre outros.

 

João Luiz Freitas, 64 anos, de General Câmara, também não teve ocorrência de mortandade das abelhas nas suas colmeias. Na ausência dos agrotóxicos, os maiores riscos para as abelhas, segundo ele, são os períodos chuvosos e a desnutrição, principalmente no outono, nas épocas em que acontecem semanas seguidas de precipitação.

 

Outro vendedor da Feira Ecológica, Fernando Presser, contudo, enfrentou um episódio de morte anormal de suas abelhas, com a perda de 15 colmeias, ano passado. Elas ficaram fracas e morreram. Mas não é possível afirmar que tenha sido por causa das plantações de soja nos arredores, diz.

 

Em todo caso, Presser decidiu publicar num jornal de Sertão Santana um alerta aos apicultores da região, para que mantenham suas abelhas bem distantes das lavouras. “Tem que se retirar da soja, porque a abelha é muito suscetível a qualquer fungicida ou veneno”, adverte.

 

Apoio ao setor

Segundo o coordenador da Câmara Setorial da Apicultura e Meliponicultura (Casam), Nadilson Ferreira, foram tomadas diversas medidas para apoiar os apicultores. Como exemplos ele cita o projeto de lei da política para apicultura e meliponicultura que tramita na Assembleia Legislativa, e a normativa para o transporte de abelhas, inédita no país, publicada no Diário Oficial do Estado dia 26 de junho.

 

Também está acontecendo a reestruturação das inspetorias veterinárias para atendimento do setor, com a capacitação de 30 técnicos que ocorreu em abril e uma nova turma que está prevista. Haverá ainda uma campanha de esclarecimento sobre a morte das abelhas a ser lançada brevemente, adianta.

 

Além disso, no final de junho, a Secretaria da Agricultura Pecuária e Irrigação (Seapi) anunciou a implementação do Sistema Integrado de Gestão de Agrotóxicos (Siga), um sistema online que integra as operações de comércio e utilização destes produtos. Teoricamente, ele vai permitir a rastreabilidade do seu uso nos cultivos agrícolas, o controle da emissão de receitas e o processo de coletas para análise de resíduos, disponibilizando um banco de dados atualizado.

 

A fiscalização do uso de agrotóxicos proibidos, contrabandeados, das misturas de produtos químicos não recomendados e o controle do receituário agronômico é uma das recomendações do Grupo de Trabalho da Mortandade das Abelhas.

 

Quanto à proibição dos agrotóxicos mais perigosos para as colmeias (Clotianidina, Imidacloprid, Tiametoxam e Fipronil), como foi sugerido, não consta nenhuma iniciativa neste sentido.

 

Veja o que apresentou o relatório do Grupo de Trabalho da Mortandade das Abelhas como propostas:

1. A recomendação de que esta Câmara Setorial deva solicitar aos órgãos competentes a proibição do uso das partículas Clotianidina, Imidacloprid, Tiametoxam e Fipronil nas culturas agrícolas no Estado, e sugerir que o mesmo se faça em todo o Brasil, tendo em vista a ameaça que causam ao processo de polinização das culturas bem como ao extermínio das abelhas.

 

2. Que os apicultores e meliponicultores sejam informados sobre os programas e calendários de controle de pragas rotineiros da sua região e quais produtos utilizados.

 

3. Os setores envolvidos: apicultores, meliponicultores e agricultores formulem regras de convivência e acordos com base em informações mútuas, pois polinização e flores são de interesse do grupo.

 

4. Colocar nas caixas o nome e fone do apicultor e ou meliponicultor para que o mesmo seja avisado com antecedência de alguma prática envolvendo agrotóxico.

 

5. Na impossibilidade de uso de produtos não tóxicos a abelha buscar o de menor ou Baixa toxidez.

 

6. Adotar, quando possível, métodos de aplicação menos impactantes para os polinizadores.

 

7. Quando da aplicação de agrotóxico ver a possibilidade de confinamento das abelhas com oferta de alimento e água.

 

8. Buscar horário de aplicação do produto químico incompatível com o horário de atividade das abelhas.

 

9. Uso de programa integrado de controle de pragas e produtos seletivos.

 

10. Cuidados com o descarte de resíduos e embalagens de agrotóxicos.

 

11. Usar agrotóxicos só quando ocorrer Nível de Dano Econômico (NDE).

 

12. Que o Estado intensifique a fiscalização do uso de agrotóxicos proibidos, contrabandeados, misturas de produtos químicos não recomendados, bem como maior controle do receituário agronômico.

 

13. Quando possível, locar os apiários e meliponários distantes das áreas agrícolas, tomando como referência o diâmetro de voo da espécie utilizada. Apis melífera 6,0 km; Meliponíneos em geral 2,0 km; Bombus e Xylocopa 10,0 km.

 

14. Manter, implantar ou recuperar áreas de amortização, Reserva Legal, e APP.

 

15. Melhorar o pasto apícola e meliponícola nas proximidades do apiário ou meliponário promovendo o efeito de fuga.

 

16. Incentivar a agricultura orgânica ou métodos assemelhados.

 

17. Provocar os programas e projetos do Ministério da Agricultura, Meio Ambiente e SEAPI e Frente Parlamentar para formação de um Fórum de discussão de política agrícola para o uso racional de agrotóxicos ou zoneamento das atividades com abelhas visando reduzir os impactos dos agrotóxicos sobre os polinizadores, ambiente, aplicadores e consumidores.

 

Participantes do GT:

1. Aroni Sattler

2. Édison Eckert Fauth

3. Ismael Horbach

4. Luis Fernando Wolff

5. Marli Kohler

6. Michele de Castro Iza

7. Péricles Boechat Massariol

8. Rogério Dalló

9. Valesca G. Finger

Coordenador: Sanderlei Pereira

Supervisor: Nadilson R. Ferreira.

 

Leia também:

Mortandade das abelhas já é generalizada no Rio Grande do Sul (primeira parte)

Mortandade das abelhas (segunda parte): GT pede a proibição de agrotóxicos 

 

 

 

 Reportagem produzida através do apoio do Programa de Pequenos Projetos da Fundação Luterana de Diaconia

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