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Terça Ecológica

Domingo, 24 de Junho de 2018

 
     

“Para nós, a terra é um bem coletivo”: professor Bruno Ferreira Kaingang fala em evento do NEJ-RS

  
  

Eliege Fante    
Bruno Ferreira Kaingang


Por Eliege Fante e Débora Gallas - especial para a EcoAgência

 Na última terça-feira, 19 de junho, a Terça Ecológica do Núcleo de Ecojornalistas teve como tema "Diversidade Ambiental e Direitos Indígenas". Os participantes discutiram os aprendizados que podem vir da relação dos povos indígenas com as demais espécies e com os bens naturais que os circundam. Da mesma forma, também debateram a incompreensão do Estado e da sociedade com sua cultura e seus saberes.

 

O professor de História, mestre e doutorando em Educação pela FACED/UFRGS, Bruno Ferreira Kaingang, abordou a diferença cultural entre a mentalidade branca e a indígena e os conflitos decorrentes do desrespeito ao modo de vida indígena. Esta diferença ficou demarcada no episódio da detenção, pela guarda municipal de Porto Alegre, de Teresa Gimenez pertencente à Comunidade Guarani Mbya do Cantagalo em 29 de abril de 2018. Uma mulher que passeava com o seu animal de estimação no Parque Farroupilha denunciou a, suposta por ela, indevida presença de um animal silvestre no local e que o mesmo estaria sendo exposto à venda. O desconhecimento cultural expressado pela mulher causou consequências à família indígena que vendia o artesanato e perdeu o dia envolvida no trâmite policial e jurídico. Teresa somente regressou à aldeia à tarde, mas o macaquinho também membro de sua família, foi apreendido para ser entregue ao IBAMA. A perda de um parente causa enorme dor a todas as pessoas, mas o direito indígena, entre eles o de conviver com os seus parentes, não foi respeitado não obstante seja previsto na Constituição de 1988.

 

Segundo Bruno, as mães indígenas criam os filhotes das outras espécies e os amamentam se há necessidade. Explicou que o filhote de uma espécie de macaco acompanhava a família porque era tido como um dos seus integrantes, e que não poderia ter ficado na aldeia sozinho pela própria segurança dele, já que os animais maiores poderiam prejudicá-lo. “Para nós, a terra é um bem coletivo e a ideia da reciprocidade regula a nossa sociedade,” disse sobre o modo de vida que inclui todos os seres da natureza, tratados com o mesmo valor que os humanos, sejam rios, árvores, outros animais. “A troca é constante entre nós, não temos essas ideias de rico e pobre,” afirmou sobre a equivocada acusação de uso do animal silvestre para a obtenção de benefício econômico.

 

A professora doutora em Educação Iara Tatiana Bonin, integrante do Núcleo de Estudos sobre Currículo, Cultura e Sociedade (NECCSO) e do Grupo de Pesquisa Cultura e Educação do PPGEDU – ULBRA, chamou a atenção para a construção que fazemos da diferença. Apontou a necessidade de um estranhamento da nossa cultura sobre como pensamos o mundo e os critérios que utilizamos para normatizar o que é direito e o que não é. “Para a cultura indígena não há separação entre natureza e humanos nem outras dicotomias. É preciso uma racionalidade intercultural para entender o outro,” disse.

 

Iara explicou que a diferença cultural é apresentada como uma forma de falta, a mesma que fundamenta a vigente tutela da FUNAI sobre os povos indígenas (Estatuto do Índio, Lei 6001/1973). A cultura branca e colonizadora os vê como atrasados e, até 2002 com a promulgação do Novo Código Civil, eram tidos como “relativamente incapazes”. Ao mesmo tempo, é utilizada na disputa por projetos de desenvolvimento sendo que o principal interesse da classe branca dominante é pela terra. A professora destacou que das 1296 terras indígenas previstas em 1988 para serem demarcadas em cinco anos, apenas 401 tiveram o processo concluído. “No Rio Grande do Sul há 27 acampamentos indígenas onde as pessoas vivem precariamente, alguns destes existem há 40 anos como Capivari, Irapuã, Lami. Por isso, os indígenas dependem da venda do artesanato e cestas básicas para sobreviver,” contou, além de ressaltar a existência de cerca de 100 Terras Indígenas no Estado.

 

Retomada da Ponta do Arado

Em 15 de junho, em Porto Alegre, houve a retomada ancestral Guarani Mbya da Ponta do Arado, bairro Belém Novo. Dois dias depois, o grupo foi abordado por seis homens armados dizendo-se policiais e exigindo a saída imediata dos indígenas, ameaça que está sob investigação do Ministério Público Federal. A retomada conta com a solidariedade de diversas entidades, entre elas, o “Preserva Arado!”, movimento que Rita da Rosa representou na Terça Ecológica. Ela informou que os guaranis necessitam de doações de alimentos, roupas e agasalhos, as quais podem ser feitas ao Sindicato dos Municipários de Porto Alegre (Simpa, Rua João Alfredo, 61, Cidade Baixa). “O nosso movimento defende a transformação da Fazenda do Arado em Unidade de Conservação, como Parque Natural,” disse sobre a área de 426 hectares que está ameaçada pelo mega “Empreendimento Urbanístico Fazenda Arado Velho”. Em Nota divulgada, o "Preserva Arado!" expressa: "Esclarecemos que esse processo é AUTÔNOMO, sendo seu protagonista as famílias Guarani Mbya, que lideram um movimento de retomada corajoso digno de admiração. Salientamos que esse movimento já havia se iniciado com petição em tramitação no Ministério Público Federal". Informações completas sobre a Retomada da Ponta do Arado estão disponíveis no site do Sul21.  


A Terça Ecológica do Núcleo de Ecojornalistas do RS (NEJ-RS) conta com o apoio da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS (Fabico/UFRGS) e do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS, e especialmente nesta edição, recebeu o apoio do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI - Rio Grande do Sul). 

 

A transmissão da Terça Ecológica pode ser conferida em EcoAgência 

 

 

 

 

EcoAgência

  
  
  
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