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Direitos Humanos

Sexta-feira, 27 de Julho de 2012

 
     

Governo promete negociar posse de Rio dos Macacos com quilombolas

  

Moradores e moradoras viviam momentos de tensão porque estava marcada para a próxima quarta-feira, dia primeiro, a reintegração de posse. Em vez disso, haverá uma reunião em Brasília entre as partes e o governo

  

Rafael Gomes    
Presença de pessoas solidárias ao Quilombo do Rio dos Macacos em resistência ao cerco da Marinha em março de 2012


Por Redação da EcoAgência com informações da Agência Brasil e Adital

Depois da ocupação da sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em Salvador, ontem (26), por moradores da comunidade quilombola Rio dos Macacos, o governo decidiu marcar para a próxima quarta-feira (1º) uma reunião em Brasília para tratar do assunto. O governo também decidiu que não haverá a reintegração de posse, temida pelos moradores da comunidade. O superintendente regional do Incra na Bahia, Marcos Antônio Silva Nery, disse acreditar na costura dos interesses dos envolvidos.
A ocupação ocorreu na hora do almoço, após uma reunião entre o Incra e os quilombolas. Os moradores só deixaram o prédio, localizado no Centro Administrativo da Bahia (CAB), às 21h30, após receberem do presidente nacional do Incra, Carlos Guedes de Guedes, uma garantia de que o governo não vai efetivar a reintegração de posse, que os moradores temiam que ocorresse no dia 1º de agosto. A garantia também foi dada pelo advogado-geral da União, Luís Inácio Adams. "Segundo Adams, não haverá reintegração de posse", disse Nery.
Durante a ocupação os quilombolas exigiram do Incra uma cópia do relatório técnico que certifica a área do Rio dos Macacos como remanescente de quilombo. O documento já foi concluído pelo Incra, no entanto, não chegou a ser publicado no Diário Oficial da União e no Diário Oficial do Estado, medida que daria valor legal ao estudo. Essa publicação depende do presidente nacional do Incra, que já recebeu o estudo. No entanto, de acordo com Nery, a publicação não foi feita devido ao litígio com a Marinha.
As 70 famílias quilombolas vivem há cerca de 150 anos, no bairro de São Tomé de Paripe, limite da cidade de Simões Filho e Salvador. O terreno é vizinho da Base Naval de Aratu, na Praia de Inema. Desde 2010, a Marinha pretende ampliar as instalações da base, onde residem 450 famílias de militares. A Base de Aratu já foi destino de férias dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e da presidenta Dilma Rousseff, que se hospedou no local por duas vezes.
Para a reunião na capital federal, foram chamados quatro representantes da comunidade para tratarem o assunto com o secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. Além disso, foram chamados para o encontro representantes da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Advocacia-Geral da União (AGU), do Ministério da Defesa, Incra e do Ministério do Desenvolvimento Agrário
 
Direitos Humanos
Na terça-feira (24), a Associação Quilombola Rio dos Macacos, com a ajuda de organizações, associações e movimentos sociais e de direitos humanos fizeram denúncia às Organizações das Nações Unidas (ONU), Internacional do Trabalho (OIT) e dos Estados Americanos (OEA) revelando as constantes violações de direitos sofridas pelos quilombolas e cometidas por militares da Marinha brasileira.
Na ONU, a denúncia vai ser encaminhada em caráter de urgência para instâncias como o Alto Comissariado para os Direitos Humanos; para a Relatoria Especial sobre moradia adequada; o Grupo de Trabalho sobre pessoas de ascendência africana; a Relatoria Especial em matéria de direitos culturais; e a Relatoria Especial sobre os direitos à liberdade de reunião pacífica e de associação.
A quilombola Rose Meire dos Santos Silva denuncia que a situação de vida no quilombo é precária, pois falta desde energia até água encanada e rede de esgoto. Escola e posto de saúde também são demandas que nunca foram atendidas, motivo pelo qual crianças e adultos, como a própria Meire permanecem analfabetos.
"A Marinha, quando ocupou nossa terra, cercou o quilombo, nos deixou isolados, e não permitiu que a gente saísse, nem que fossem feitas melhorias aqui. Nós temos documentos que provam que a Coelba [Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia] poderia ligar a energia, mas o Comandante não permitiu. Uma moradora do quilombo chegou a morrer porque precisava ficar ligada a um equipamento, mas como a gente não tem energia ...”, denuncia.
"Nós só queremos nossos direitos, queremos permanecer no quilombo e ter os nossos direitos humanos respeitados”, reivindica Rose Meire.
 
Histórico
Há mais de 40 anos, a comunidade quilombola Rio dos Macacos resiste e luta para permanecer na terra onde moraram seus antepassados. A batalha judicial começou na década de 60, quando a Prefeitura de Salvador doou o território à Marinha, provocando revolta nos moradores e moradoras da região. Para piorar a situação, dentro do quilombo foi construída uma vila naval, situação que deu origem a constantes enfrentamentos e violações de direitos humanos.
Rose Meire conta que esta briga já tirou a vida de várias pessoas. Algumas por agressões direitas, como o jovem quilombola que em 2011 foi atropelado e morto por um sargento da Marinha – e outras indiretos, como os casos de quilombolas que estão com problemas psicológicos ou morreram por AVC e ataques cardíacos. Apenas nos últimos três anos foram registradas seis mortes.
Desde o início desta batalha, várias famílias quilombolas foram vencidas pelo cansaço e pelo medo e abandonaram a região. Meire conta que algumas estão vivendo na rua, outras na casa de parentes e em casas alugadas. Outro problema grave que veio junto com a chegada da Marinha foram estupros e espancamentos.
 
Agência Brasil - Adital - EcoAgência

  
  
  
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Autorizada a reprodução, citando-se a fonte.
 
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