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Domingo, 18 de Novembro de 2012

 
     

Arroio Dilúvio, em Porto Alegre: a degradação das águas ao longo da história

  

Por um lado, a canalização do arroio reduziu a ocorrência das enchentes, mas outra problemática foi se agravando ao longo do tempo: o intenso processo de degradação das águas do antigo Riacho.

  

Arroio Dilúvio, em Porto Alegre


Por Alexandre Miorim, especial para a EcoAgência de Notícias

Já imaginou dar um mergulho no Arroio Dilúvio? Hoje em dia soa como um absurdo, mas quem conhece a história de Porto Alegre sabe que o poluído córrego da Avenida Ipiranga já foi local de pesca e de banho. Alvo do despejo anual de mais de 50 mil metros cúbicos de lixo e terra, o canal apresenta atualmente um grau de contaminação que impossibilita tais práticas. Registros históricos, no entanto, revelam um outro panorama do arroio.

Na primeira metade do século passado, as águas do Dilúvio eram límpidas, numa época em que eram conhecidas como “Riacho”, “Riachinho” ou “Arroio Sabão” (devido à localização de sua nascente, na elevação conhecida como Lomba do Sabão, em Viamão). Seu leito também era diferente. Antes de desaguar no Guaíba, percorria uma área próxima à Usina do Gasômetro, numa localidade chamada Ponta da Cadeia. Passava sob a Ponte de Pedra, construção que existe até hoje – agora como monumento –, perto do Largo dos Açorianos. O nome de Dilúvio surgiu em razão das frequentes cheias em dias de chuva, principalmente nos bairros Menino Deus, Santana, Azenha e Cidade Baixa.

Havia também uma zona próxima à Praça Garibaldi – onde hoje se encontra o Ginásio Tesourinha –, na qual o manancial apresentava uma bifurcação. Quando chovia, essa área se transformava em verdadeira ilha, isolando os moradores do restante da cidade. Conhecida como “Ilhota”, a região apresentava condições precárias de saneamento e habitação.

Para reduzir os problemas gerados com os constantes alagamentos, a abertura de um canal em linha reta para facilitar a vazão das águas ao Guaíba já era cogitada por autoridades municipais desde o início do século XX, conforme alguns historiadores. Mas enquanto os planos não saiam do papel, a alteração do percurso do manancial só teve início efetivo depois que uma grande calamidade pública atingiu a capital gaúcha. Em 1941, a maior enchente da história de Porto Alegre causou um legítimo drama urbano, marcando o imaginário popular do município. Apesar de não ter causado mais de vinte mortes, cerca de 70 mil pessoas – quase um quarto da população porto-alegrense da época – ficaram desabrigadas.

Apenas em 1950, o Governo Federal financiou, através do extinto Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), a canalização do Arroio Dilúvio. Somando décadas de intrincados estudos e projeções relacionadas estritamente à questão sanitarista, as obras perpassaram várias gestões municipais e só foram concluídas em 1976. A grande cirurgia urbana, entretanto, foi realizada sem considerar importantes aspectos socioambientais.

Esgoto a céu aberto

Por um lado, a canalização do arroio reduziu a ocorrência das enchentes, mas outra problemática foi se agravando ao longo do tempo: o intenso processo de degradação das águas do antigo Riacho. A bióloga e ecologista Georgina Bond Buckup, doutora em Zoologia e diretora da ONG Sócio Ambientalista Igré – “Amigos da Água”, lembra que, em 1982, chegou a dar “aulas práticas dentro da água”, em um curso sobre a caracterização ecológica do arroio. Ela explica que, embora já poluído na época, ainda era possível se trabalhar com luvas e macacão de borracha.

Entre as causas para a perda da qualidade das águas do Dilúvio, ela aponta o crescimento populacional, principalmente a partir da década de 1960, que culminou na criação de novas áreas urbanizadas, como o aterro da Praia de Belas e o traçado de novas avenidas. Devido à exponencial industrialização e urbanização do município, o córrego, que originariamente deveria ter um caráter pluvial, passou a receber grandes quantidades de detritos, inclusive de esgotos cloacais. “Os habitantes urbanos e muitos administradores municipais não olham os cursos d´água como fazendo parte do ambiente natural, merecedor de proteção ou, pelo menos, de um gerenciamento apoiado nos princípios da sustentabilidade”, registra. “Para esses, um curso d´água representa um local onde se pode largar todo tipo de objetos líquidos e sólidos descartáveis, pois a água se encarregará de levar embora. E assim, não haverá compromisso com o que foi descartado no anonimato”.

De acordo com a ambientalista, esse tipo de conduta impessoal combinado ao descaso por parte das autoridades em relação ao saneamento resulta em um intenso processo de degradação. “É muito mais interessante ao poder público transformar um rio em esgoto a céu aberto, do que enterrar canos de esgoto no chão, coisa que não gera dividendos eleitorais”, manifesta.

Colaborador do Instituto de Meio Ambiente da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), o engenheiro químico Cláudio Frankenberg complementa sobre a responsabilidade dos cidadãos em preservar o Arroio Dilúvio. “Não se trata apenas daquilo que é depositado diretamente no Dilúvio, pois há diversas regiões da cidade que estão interferindo no arroio de formas direta e indireta. Lixos jogados indevidamente na rua a várias quadras de distância, por exemplo, quando chove, podem parar dentro do córrego”.

Responsabilidades e perspectivas

Desde 1980, dragagens periódicas passaram a ser realizadas no Arroio Dilúvio. A atividade é realizada pelo Departamento de Esgotos Pluviais (DEP) da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Da Divisão de Obras e Projetos do órgão, a engenheira civil Daniela Bemfica atribui a situação de poluição dos córregos à má qualidade da própria água pluvial para além da canalização. “As águas da chuva lavam ruas e telhados, carregando para dentro dos arroios os resíduos encontrados. Sendo assim, o arroio estando canalizado ou não, a qualidade da água seria ruim da mesma forma”, pondera.

Segundo ela, outro fator está na irresponsabilidade quanto ao despejo de resíduos cloacais na rede pluvial. “Em muitas regiões, simplesmente não existe rede de esgoto cloacal, então ele é ligado diretamente na rede pluvial, ou em arroios afluentes ao Dilúvio. Já em outras áreas, principalmente nas mais antigas da cidade, existe a rede coletora cloacal, porém há ainda ligações clandestinas na rede pluvial”, comenta.

Além do problema da ligação indevida entre os esgotos pluvial e cloacal, percebe-se também a falta de educação e conscientização ambiental por parte dos cidadãos em relação ao tratamento que se deve ter com o Arroio. Da mesma forma, analisando o histórico do Dilúvio, sente-se a ausência de uma preocupação com a questão ambiental, que deveria ser central no que diz respeito à alteração do trajeto de um curso d’água.

E em termos de perspectivas futuras, seria possível amenizar ou, até mesmo, reverter esse quadro? Que ações ou comportamentos, por parte da comunidade e dos poderes públicos, poderiam reduzir o grau de poluição do Dilúvio?

A ambientalista Georgina Bond Buckup transmite certa esperança nesse sentido, exemplificando outros rios poluídos ao redor do mundo que tiveram suas águas recuperadas. São os casos do Reno, na Alemanha, e do Tamisa, na Inglaterra. “Tudo dependerá da execução de um eficaz projeto de saneamento do arroio por parte de poder público e do desenvolvimento de ações de educação ambiental junto à população, em especial dirigidas aos habitantes ribeirinhos.”

 


Matéria elaborada para a disciplina Jornalismo Ambiental, FABICO/UFRGS, sob a orientação da Profa. Ilza Girardi.

 

Ecoagência Solidária de Notícias Ambientais

  
  
  
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