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Observatório de Jornalismo Ambiental

Segunda-feira, 09 de Agosto de 2021

 
     

Misoginia, violência e morte: meio ambiente na Editoria de Polícia

  

É preciso que cada um de nós perceba que nosso modo de vida, aquilo que fazemos e que consumimos, pode estar muito estreitamente relacionado com o dilaceramento da vida em suas diversas formas

  

Foto: Ministério Público do RS    
Área da Terra Indígena do Guarita vem sendo tensionada por atividades econômicas e presença de não indígenas


Por Ursula Schilling*

Um dos pontos centrais do jornalismo ambiental é a transversalidade da pauta “meio ambiente”. Não se trata de uma editoria sobre o assunto, mas de jornalistas e veículos abordarem o tema para além da superfície, entendendo e explorando sua complexidade e sua relação com tópicos que, aparentemente, não estão debaixo do guarda-chuva ambiental.

Um exemplo disso é a notícia sobre a morte, ainda sem causa e motivação definidas, de Daiane Griá Sales, menina Kaingang de 14 anos, encontrada em uma lavoura no Noroeste do RS na semana passada. A polícia trabalha com a hipótese de assassinato. Não cabe aqui explorar a cena cruel em si, narrada por diferentes veículos. A intenção é provocar uma reflexão sobre o foco na morte e nos detalhes que chamam para cliques e para leitura e sobre a quase ausência de questionamentos quanto às possíveis razões de tal barbárie acontecer.

Tratado como caso de polícia, e de fato é, o que chama a atenção e é o gancho para essa análise, é que a situação poderia e deveria ser vista sob o prisma ambiental. Desde muito tempo, no Brasil, há 521 anos especificamente, os povos indígenas estão sob constante ataque e vêm sendo massacrados. As políticas de desmonte do atual governo têm agravado a situação.

A questão indígena, especialmente quando se trata de disputas de terra, merece ser abordada aqui e em outros momentos. A raiz de perseguições e violências precisa ser debatida, esmiuçada. Falar de grilagem, mostrar os interesses e práticas do agronegócio e da mineração, por exemplo. E, além disso, os mecanismos que sustentam esses pilares da economia e colaboram para a manutenção de desigualdades sociais e ambientais, a saber, nossos hábitos de consumo.

De seis sites consultados, dois, Sul 21, Extra Classe – e não por coincidência alternativos – pincelam a questão das disputas de terras. Os outros quatro, sendo três de grandes veículos, G1, Isto É e GZH, se concentram na ocorrência policial, no feminicídio (por si só gravíssimo).

Quando ecojornalistas, pesquisadores e ativistas reclamam por mais espaço, especialmente na mídia hegemônica, não é sobre (só) volume, quantidade de aparições das pautas ambientais, mas sua profundidade. Um trabalho informativo/educativo, ao longo do tempo, através das editorias. Já passou da hora de o jornalismo construir suas pautas de forma a não só informar parcial e superficialmente o que ocorre, mas a descortinar facetas “esquecidas” ou silenciadas dos acontecimentos.

É preciso que cada um de nós perceba que nosso modo de vida, aquilo que fazemos e que consumimos, pode estar muito estreitamente relacionado com o dilaceramento da vida em suas diversas formas. Que se desfaça a ideia de “natureza X sujeito”, uma vez que o sujeito é parte da natureza. Não é somente a morte de fauna e flora, o desaparecimento da biodiversidade. É também o fim de vidas humanas, parte do ambiente, afinal.

 

 

*Texto produzido no âmbito do projeto de extensão "Observatório de Jornalismo Ambiental" por integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). A republicação é uma parceria com o Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS). Ursula Schilling é jornalista e membro Núcleo de Ecojornalistas do RS e do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

 


 

 

 

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