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Observatório de Jornalismo Ambiental

Segunda-feira, 30 de Agosto de 2021

 
     

Marco temporal: jornalismo e o não reconhecimento dos indígenas

  

O desrespeito e a negativa em abrir-se a uma compreensão dos indígenas deve seguir sendo criticada. É preciso lembrar que só pela alteridade podemos estabelecer o espaço comum, conviver e avançar de modo igualitário

  

@projetemos    
Projeção em prédio de Brasília na semana da mobilização indígena contra o Marco Temporal


Por Reges Schwaab*

Foi adiado para esta semana o que é considerado o julgamento mais importante dos últimos trinta anos para os povos indígenas. A tese do “marco temporal” prevê que os povos indígenas só teriam direito à terra se estivessem sobre sua posse no dia cinco de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal. Ou precisariam comprovar uma disputa judicial ou um conflito pela área na mesma data. 

O marco temporal e sua defesa expõem uma perspectiva perversa, achatada, contrária à alteridade. São cortadas dela a racionalidade ambiental, a consciência histórica e a centralidade do outro como balizadores da vida em comum. O fator ambiental desconsiderado pelos seus defensores também extingue as possibilidades de diálogo compreensivo e a necessidade de reparação histórica aos povos originários. No lugar, como vimos acontecer tantas vezes, vêm as sementes modificadas pela lógica da terra como propriedade, um objeto a ser explorado. Por séculos, os indígenas foram massacrados e expulsos de seus espaços. Só esse grave fator já invalida a defesa do marco temporal. Mas temos outros elementos. É notório que a permanência dos indígenas em seus territórios é garantia de preservação e conservação ambiental. Além disso, a cultura desses povos é desenvolvida a partir de um conhecimento que interliga profundamente seu modo de vida ao ambiente, uma inteligência autônoma e radical, uma das raras chaves para a autêntica ação diante do cenário de crise ambiental que vivemos. Preferimos devastá-los em lugar de compreendê-los, entretanto. 

Quando o jornalismo insiste em faltar, é preciso dar a manchete na rua, como na projeção flagrada na imagem acima. Termos seis mil indígenas mobilizados em Brasília já é um acontecimento digno de acompanhamento jornalístico qualificado. Requer trabalho de reportagem e exploração das distintas compreensões sobre o tema. Em vez disso, lemos novamente um jornalismo calado diante do complexo, e guiado pelo patrocínio do agronegócio em seu interesse pela posse de todos os terrenos possíveis. 

Em páginas duplas no primeiro caderno da edição de 22 de agosto, O Estado de S. Paulo mostra o tom: Julgamento do STF pode afetar propriedades de todo o Brasil. Nele, assim como em outros meios de referência, durante a semana em que o julgamento deveria começar, indígenas nunca foram protagonistas da sua própria questão e nem vozes para contar como sua própria história poderia ser acolhida. A violência contra os povos originários se capilariza de muitas formas no Brasil, e emerge forte no discurso, especialmente porque ainda está nos jornais uma capacidade de circulação desses dizeres. No centro da construção de sentidos sobre o ambiental, para o avanço do capital na colonização do imaginário, temos visto que não há limites. As parcerias pagas em jornais e canais informativos se ampliam, em que pese o fato de que toda cobertura já é, há tempos, acentuada pelo modelo de agronegócio como único caminho, não importa a temática. Como este mesmo Observatório já comentou tantas vezes, patrocínio, pagamento por conteúdo, falta de pluralidade de fontes estão entre os fatores que contaminam a produção jornalística, desconfiguram sua narrativa, fazendo emergir um simulacro de produção informativa, sem contrapontos e sem debate. 

Além da negativa de espaço a uma narrativa mais completa, temos de evidenciar a ausência de um gesto anterior ao fazer jornalístico. Seis mil indígenas estiveram em Brasília, mas o jornalismo, em geral, não quis falar com eles, não teve tempo para escutá-los em sua temporalidade e, por isso, não considera o conhecimento originário, a visão de mundo desses povos, nem seus direitos. Ver as falhas no diálogo entre as distintas vozes permite um olhar crítico ao que o jornalismo oferece em acontecimentos históricos cruciais. Além disso, permite recordar de um apagamento histórico de muitos sujeitos, da desconsideração do outro e do meio ambiente, dois dos elementos de sustentação das sociedades democráticas e sustentáveis. 

O próprio julgamento do STF, que deve ser estendido por várias sessões, tem uma temporalidade distinta da temporalidade indígena, ou de uma temporalidade humana, da urgência da vida. Há, inclusive, apostas na demora como modo de esvaziar a mobilização. A temporalidade jornalística é, igualmente, distinta de ambas, especialmente a dos povos originários. A história, a cultura e a cosmovisão desses povos não cabem em nossas páginas tão apressadas. O jornalismo adianta a resposta e prefere logo fechar questão no que considera o ideal. 

O desrespeito e a negativa em abrir-se a uma compreensão dos indígenas deve seguir sendo criticada. É preciso lembrar que só pela alteridade podemos estabelecer o espaço comum, conviver e avançar de modo igualitário. É o que a filosofia nomeará como o gesto do reconhecimento. O outro como o compromisso primeiro para a comunicação e o jornalismo, tendo a alteridade como projeto para a produção do conhecimento, é inegociável, não parece haver outro caminho para trabalhar as crises do nosso tempo. Que história cada um desses seis mil indígenas poderia reportar? Que encontro seus relatos poderiam nos proporcionar se não fosse oferecida apenas a cobertura protocolar? E se pudéssemos, a partir do gesto do reconhecimento, escutá-los e aprender a dizer com eles?

"O rosto do outro me afirma e torna minha própria existência humana ao solicitar-me uma escuta e, ao mesmo tempo, uma palavra. Sob esse aspecto, o dizer estabelece uma relação entre duas liberdades, afirmando a identidade dos interlocutores. Nos reconhecemos quando interpelados pelo rosto do outro: não se trata de submissão, mas de um comando ou apelo feito de uma identidade à outra. O rosto, o humano, abre uma fresta na casca do ser, tornando-o refém do outro, do estrangeiro que bate à nossa porta. A exposição ao outro define as identidades e faz com que o outro se torne importante, vital para a existência do eu." (MARTINO; MARQUES, 2019, p. 35). 

 

 

Referência:

MARTINO, Luís Mauro Sá; MARQUES, Angela Cristina Salgueiro. A comunicação como ética da alteridade: pensando o conceito com Lévinas. Intercom (SÃO PAULO. ONLINE), v. 42, p. 21-40, 2019.

 

Sugestões de leitura e ampliação do debate:

1. Guardiões da Floresta, Revista Radis/Fiocruz - edição 227 - Agosto/2021.

https://radis.ensp.fiocruz.br/index.php/todas-as-edicoes/227

2. Repercussão Geral sobre o Marco Temporal - cobertura do Conselho Indigenista Missionário - CIMI.

https://cimi.org.br/repercussaogeral/

3. Povos Originários: segue a batalha contra o marco temporal, Eliane Tavares para o site do ILEA/UFSC.

https://iela.ufsc.br/noticia/povos-originarios-segue-batalha-contra-o-marco-temporal?fbclid=IwAR3Z2cVBvRUyFUJ-KbhJLhVP7FwRGDdyDP2qRzeCyrP-MUMZOvnZIFPZ65w

4. Onde tem índio, tem floresta em pé. Entenda o que está em jogo com votação do “marco temporal”, para O Eco.

https://www.oeco.org.br/reportagens/onde-tem-indio-tem-floresta-em-pe-entenda-o-que-esta-em-jogo-com-votacao-do-marco-temporal/?fbclid=IwAR0mBadoRBgBxsdrU1P7O1sNYslfGYXaHry6Fa6hMbG9aEUPJqnLbfkyDDI

 

 

* Texto produzido no âmbito do projeto de extensão "Observatório de Jornalismo Ambiental" por integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). A republicação é uma parceria com o Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS). Reges Schwaab é jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

 

 

 

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