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Quinta-feira, 03 de Março de 2016
  
29 de janeiro de 2016, muito mais que ventos fortes

Grande imprensa omite informações sobre adaptação e mitigação de impactos da mudança climática. Seria uma afronta aos interesses do poder econômico, com destaque para a especulação imobiliária e a indústria automobilística. Essa imprensa é a voz desse poder e jamais aprofundará esse debate

  
Por Eduardo Luís Ruppenthal
  

Passadas algumas semanas do evento climático extremo ocorrido em Porto Alegre ainda tenta-se buscar explicações, entender as causas ou simplesmente aceitar a sua classificação conforme seus efeitos em furacão de classe 1 e considerá-lo como uma exceção de fenômeno ocorrido nas últimas décadas. O stablisment, em destaque os grandes meios de comunicação chegaram a divulgar as opiniões divergentes dos meteorologistas sobre a definição do evento, mas o debate se encerrou por isso mesmo. O que chama a atenção é a falta de aprofundamento, a omissão de tentar entender as reais causas e não dar voz a algumas pessoas, cientistas e organizações socioambientais que apontaram a relação com as mudanças climáticas causadas pela ação humana e pelo atual modelo de desenvolvimento praticado nas cidades. 

 

Neste primeiro texto, debateremos as mudanças climáticas. Importante destacar que mudanças climáticas sempre ocorreram no nosso Planeta, estas chamadas de mudanças climáticas naturais, e o que tem preocupado centenas de cientistas nas últimas décadas são as mudanças climáticas antropogênicas, provocadas pelas atividades humanas, com um corte temporal bem definido desde a Revolução Industrial, aprofundadas rapidamente nos últimos 60 anos. Essas transformações são tantas que cada vez mais ganha força a expressão “Antropoceno”, cunhada pela primeira vez em 1995, pelo professor e Prêmio Nobel de Química, Paul Crutzen, para definir esses últimos 200 anos, em substituição ao Neoceno, período da escala evolutiva da Terra em que apareceram os hominídeos. O prefixo antropos (do grego antrophos) significa homem. 

 

As consequências de um modelo de produção, exploração ilimitado e insustentável frente aos recursos naturais limitados são inúmeras e vistas em todos os lugares do planeta, nos nossos municípios e regiões: desde a situação agonizante dos nossos rios e cursos d’água, passando pela contaminação dos solos por agrotóxicos à poluição do ar nas cidades. Além do aspecto isolado de cada um desses problemas, este modelo está afetando e mudando o nosso clima, tanto em nível local como global.

 

Mesmo que haja muitas respostas ainda a serem buscadas, a ciência vem advertindo para os problemas ambientais e conseguiu ao menos mobilizar as atenções em dados e análises que não podem ser mais simplesmente refutados. E com a realização das Conferências do Meio Ambiente, com destaque para a Rio 92, fazer com que o tema esteja presente em todas as agendas internacionais, apesar dos poucos resultados efetivos. Já que as soluções propostas fazem parte da mesma lógica que produziu os problemas, em uma clara tentativa de “esverdear” o sistema. Mesmo que tenhamos avançado no campo científico e organizado uma rede de dados, informações e prognósticos, a dimensão do que está acontecendo ainda é de desconhecimento da maioria da população mundial, a mais afetada por essas mudanças.

 

Parece que as projeções feitas pelo grupo de mais de 1.500 cientistas que formam o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) em seus relatórios, principalmente no último, o de número 5, não só são desconhecidas, como poderíamos imaginar em um primeiro momento, também são omitidas por nossa grande imprensa. E um dos principais motivos é que em uma das primeiras sugestões feitas pelo IPCC como medida de adaptação e mitigação para enfrentar os impactos é a necessidade de mudanças nos estilos de vida e nos padrões de comportamento visando a redução das emissões dos Gases do Efeito Estufa (GEEs). Isso confronta os interesses do poder econômico que atua nas cidades com destaque para a especulação imobiliária e a indústria automobilística. Essa imprensa que é a voz e muitas vezes é o poder econômico, jamais fará esse debate e aprofundamento para não contrariar seus interesses e de seus representantes.

 

Segundo o IPCC, o Brasil é um dos países que se encontra vulnerável diante dos efeitos das mudanças climáticas. Sendo que nosso território já registra impactos adversos da variabilidade natural do clima. E aponta que o crescente aumento das emissões e o aquecimento global devem induzir a uma maior ocorrência de desastres naturais, como no aumento da frequência e intensidade de eventos meteorológicos extremos, tais como: ondas de calor, tempestades severas, inundações, enxurradas, vendavais e secas prolongadas. 

 

Nos últimos anos a região Sul do Brasil registrou eventos extremos relacionados à velocidade dos ventos como o furacão Catarina que atingiu Santa Catarina em 2004. Foi o primeiro do Atlântico Sul, assim livros e manuais tiveram que ser reescritos, já que todos negavam a possibilidade de um furacão no Brasil. Além dos prejuízos econômicos calculados em R$ 850 milhões, afetou mais de 1 milhão de pessoas, contabilizando 11 mortos. Em 2009, um tornado de mais de 110 km/h atingiu Muitos Capões, município do noroeste do estado do Rio Grande do Sul deixando um rastro de destruição de 22 casas e outras 60 destelhadas, ferindo inúmeras pessoas. Em abril de 2015, um outro tornado foi registrado na região Oeste catarinense, com epicentro no município de Xanxerê, tendo destruído 500 casas e provocado duas mortes. Outros fenômenos extremos, muitos similares ao ocorrido em Porto Alegre foram descritos nos últimos anos, passaram despercebidos por terem ocorrido em áreas de pouco povoamento e assim com menor destruição ao ser humano. Entretanto um deles que ocorreu nos campos do bioma Pampa causou enormes estragos na região de Santana do Livramento, destelhou 350 casas e derrubou oito aerogeradores da usina eólica da Eletrosul. Os ventos chegaram a 126 km/h. 

 

Assim, recapitulando alguns eventos que se tem registro e que foram noticiados, o que aconteceu em Porto Alegre não foi uma exceção nos últimos tempos na região Sul do Brasil. E mesmo que haja necessidade de pesquisas mais aprofundadas para relacionar esses exemplos de eventos climáticos extremos com o aquecimento global, é imperativo não negarmos mais as reais possibilidades frente ao atual cenário que atingimos em relação ao aumento da emissão dos gases do efeito estufa e das suas consequências principalmente das mudanças climáticas antropogênicas. As evidências são muitas como o aumento da temperatura média da Terra. Frente a constatação de que 2015 foi o ano mais quente da história desde o início dos registros meteorológicos em 1880. Aliado a isso, destacamos que os 15 dos 16 anos mais quentes ocorreram desde 2000 – a única exceção foi 1998, quando ocorreu um forte  El Nino. Segundo a Nasa e a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos EUA (NOAA), essa série histórica confirma as previsões sobre as mudanças climáticas associadas à ação humana.

 

É imperativa a discussão e o aprofundamento do debate para podermos agir coletivamente e apontar opções pontuais de adaptação e mitigação dos impactos, e pensar a partir das nossas cidades um outro modelo de sociedade, não este que na sua essência está a insustentabilidade, na degradação e na desigualdade socioambiental. Um modelo centrado na vida, em todas as suas formas, respeitando a biodiversidade, o papel de agirmos localmente com compromisso na ação coletiva, com o princípio de que nosso planeta é a nossa casa comum, dos nossos filhos e das gerações futuras.

 

  
             
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